Quando o estético se torna patológico?
Muitas vezes confundidos, a celulite e o lipedema têm origens e impactos completamente diferentes no corpo. Enquanto um é uma alteração do tecido, o outro é uma doença crônica e progressiva.
O Lipedema foi oficialmente reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS) recentemente, em 2019 (CID-11). Antes disso, não havia um código próprio e a doença era frequentemente confundida com obesidade (E66) ou linfedema (I89).
O reconhecimento como doença permitiu que médicos tivessem um diagnóstico padronizado e que sistemas de saúde e planos de saúde passassem a olhar para a condição como uma patologia real e crônica, e não apenas uma questão estética ou de falta de hábitos saudáveis.
O Lipedema foi descrito pela primeira vez em 1940 pelos médicos Allen e Hines na Clínica Mayo (EUA), mas por décadas foi negligenciado pela ciência. A falta de conhecimento técnico fazia com que a gordura do lipedema fosse tratada como gordura comum, o que gerava frustração nas pacientes, já que essa gordura é resistente a dietas e exercícios convencionais.
1. O que é cada um?
- Celulite (Lipodistrofia Ginoide): É uma alteração causada pelo acúmulo de gordura, água e toxinas nas células, deixando a pele com aspecto de “casca de laranja”. É comum em 95% das mulheres e, geralmente, não causa dor.
- Lipedema: É uma doença inflamatória crônica caracterizada pelo acúmulo anormal e desproporcional de gordura em regiões específicas (geralmente pernas e braços), poupando mãos e pés. É uma condição genética e hormonal.
2. Quando a “Celulite” se torna preocupante?
A celulite comum raramente é um risco à saúde, sendo uma preocupação estética. No entanto, você deve ligar o sinal de alerta se notar as seguintes características, que indicam o Lipedema:
- Dor ao toque: A gordura do lipedema dói. Um simples aperto ou o peso de um gato no colo causa desconforto.
- Hematomas frequentes: Surgem roxos nas pernas sem que você se lembre de ter batido em algum lugar (fragilidade capilar).
- Desproporção: Você emagrece no rosto e tronco, mas as pernas continuam grossas e “pesadas”.
- Pés poupados: Há uma “fita” ou degrau de gordura no tornozelo, mas o pé permanece magro.
- Sensação de peso: As pernas parecem feitas de chumbo ao final do dia.
3. Sintomas e evolução (O que acontece se não tratar?)
Se o lipedema não for diagnosticado e tratado, ele evolui em graus:
- Estágio 1: Pele macia, mas com nódulos de gordura palpáveis.
- Estágio 2: Superfície da pele irregular (parece celulite grave) e presença de massas de gordura maiores.
- Estágio 3: Grandes dobras de gordura que podem causar deformidade e dificuldade de locomoção.
- Lipo-linfedema: O acúmulo de gordura obstrui o sistema linfático, causando inchaço grave e risco de infecções de pele (erisipela).
4. Existe cura e como tratar?
O lipedema não tem cura definitiva, mas tem controle eficaz que devolve a qualidade de vida.
Tratamento clínico (Conservador):
- Dieta Anti-inflamatória: Evitar açúcares, glúten e ultraprocessados ajuda a reduzir a inflamação da gordura.
- Atividade Física: Exercícios de baixo impacto, especialmente na água (natação/hidroginástica), são ideais.
- Compressão Elástica: Uso de meias de compressão medicinais específicas.
- Drenagem Linfática: Ajuda a reduzir o edema (inchaço).
Tratamento cirúrgico:
- Lipoaspiração Especializada (Técnica WAL ou Tumescente): Diferente da lipo estética, ela foca em remover a gordura doente preservando os vasos linfáticos. É indicada em casos de dor persistente ou perda de mobilidade.
Quando buscar um médico?
Se você sente dor nas pernas, percebe que elas não diminuem com dieta e exercício, ou se os hematomas são constantes, procure um Angiologista ou Cirurgião Vascular. Eles são os especialistas capacitados para diferenciar gordura comum de lipedema.
Fontes Consultadas:
- SBACV (Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular): Diretrizes sobre Lipedema.
- OMS (Organização Mundial da Saúde): Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-11).
- Instituto Lipedema Brasil: Pesquisas e dados epidemiológicos sobre a doença no país.
- Ministério da Saúde: Protocolos de atenção básica para doenças vasculares e linfáticas.



