O silêncio que mata: a saúde mental masculina e a prevenção do feminicídio

O silêncio que mata: a saúde mental masculina e a prevenção do feminicídio

O Brasil assiste a um fenômeno alarmante: o aumento dos casos de feminicídio, muitas vezes em relacionamentos de curtíssima duração. Quando a mulher exerce sua autonomia e decide encerrar o vínculo, a resposta de alguns homens é a violência extrema. Especialistas alertam que, embora o machismo estrutural seja a base, existe um componente de saúde mental e emocional que precisa ser endereçado com urgência.

1. A construção da masculinidade e a gestão de perdas

Estudos sobre saúde mental do homem indicam que muitos são socializados sob o estigma de que “homens não choram” ou “homens não falham”. Isso cria uma dificuldade patológica em lidar com a rejeição e a frustração. Quando uma mulher termina um relacionamento, esse homem não interpreta apenas como o fim de um ciclo, mas como uma perda de controle e uma afronta à sua identidade.

2. O perfil do agressor e a saúde pública

Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e de órgãos de saúde suplementar apontam que o comportamento possessivo é frequentemente acompanhado de quadros não tratados de ansiedade, depressão e, principalmente, transtornos de personalidade.

  • A “Saúde” do Agressor: Não se trata de “loucura”, mas de uma saúde emocional precária que não desenvolveu ferramentas para o diálogo e a aceitação.
  • Consumo de Substâncias: O uso abusivo de álcool e drogas aparece como um catalisador em grande parte dos casos registrados, potencializando a agressividade.

3. Acompanhamento psicológico: uma medida preventiva?

A sua indagação sobre o acompanhamento psicológico é corroborada por diversos profissionais da área. Já existem iniciativas no Brasil, como os Grupos de Reflexão para Homens Autores de Violência, previstos na Lei Maria da Penha (alteração de 2020).

  • Por que funciona? Esses grupos buscam desconstruir o “direito de posse” e ensinar o homem a identificar e nomear suas emoções antes que elas se transformem em atos violentos.
  • Prevenção Primária: O acompanhamento psicológico focado na “gestão de crise de separação” poderia ser uma ferramenta poderosa para homens que manifestam comportamentos de perseguição (stalking) ou ameaças após o término.

4. O que dizem os levantamentos recentes?

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025/2026) mostram que a maioria dos feminicídios ocorre por “sentimento de posse” e “inconformidade com o término”. Isso demonstra que o monitoramento não deve ser apenas policial, mas também uma rede de assistência social e psicológica que identifique o homem em risco de cometer violência antes que o crime ocorra.


Visão do profissional de saúde

Para reduzir os índices de feminicídio, o Estado precisa olhar para o homem não apenas como um potencial criminoso, mas como um indivíduo que carece de literacia emocional. Tratar a saúde mental masculina é, indiretamente, proteger a vida das mulheres. Precisamos de políticas que incentivem o homem a buscar terapia e grupos de apoio sem o peso do julgamento social.


Fontes Consultadas:

  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): Relatórios anuais sobre violência de gênero e feminicídio.
  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS): Relatórios sobre saúde masculina e prevenção da violência.
  • Ministério da Saúde (Brasil): Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH).
  • Conselho Federal de Psicologia (CFP): Notas técnicas sobre a atuação do psicólogo no atendimento a homens autores de violência doméstica.
  • Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06): Atualizações sobre a obrigatoriedade de comparecimento a programas de recuperação e reeducação.

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