Revolução na saúde ocular: como a Inteligência Artificial pode reduzir a cegueira no Brasil
A crescente aplicação da inteligência artificial (IA) na medicina promete transformar o cenário da saúde ocular no Brasil, um país onde milhões ainda convivem com problemas de visão evitáveis. Em entrevista ao canal Real Time, no YouTube, o Dr. Cláudio Lotemberg, médico e presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein, detalha como a tecnologia pode reduzir desigualdades e prevenir doenças graves.
Cegueira evitável: um problema de saúde pública
O Brasil registra cerca de 1,5 milhão de pessoas cegas, sendo que até 90% dos casos poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e acesso a correção visual. Conforme destaca Lotemberg, algo básico ainda figura como a principal causa de baixa visão no país:
- A falta de óculos é, isoladamente, o maior fator que limita a visão de milhões.
- A dificuldade de acesso a exames simples ainda compromete educação, inclusão e produtividade.
Com uma população que envelhece rapidamente, doenças como catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade (DMRI) também vêm crescendo — esta última afetando cerca de 20% das pessoas acima dos 70 anos.
IA: diagnóstico antes do sintoma
Lotemberg destaca que a IA é capaz de antecipar problemas de saúde com precisão inédita, inclusive em áreas além da oftalmologia. Utilizando análise automatizada de imagens do fundo de olho, já é possível detectar riscos de:
- Infarto
- Acidente vascular cerebral (AVC)
- Doenças metabólicas
- Eventos tromboembólicos
Essa capacidade decorre da relação direta entre vasos sanguíneos oculares e o estado geral do sistema circulatório — algo que a IA interpreta com rapidez e escala impossíveis ao exame humano tradicional.
Para o contexto brasileiro, porém, o especialista reforça a necessidade de bancos de dados compatíveis com a diversidade étnica nacional, evitando vieses e tornando os algoritmos mais eficientes.
Telemedicina como ferramenta de inclusão
Em um país de dimensões continentais, Lotemberg considera inviável depender apenas do atendimento presencial. A solução passa por integrar:
- Telemedicina
- IA para triagem e análise inicial
- Protocolos de alta produtividade
- Modelos cirúrgicos inspirados em centros de excelência internacionais
Ele cita como exemplo sistemas adotados na Índia para cirurgias de catarata — procedimentos realizados em larga escala, com eficiência e qualidade, reduzindo filas e democratizando o acesso.
No Brasil, aproximadamente 35 milhões de pessoas nunca passaram por uma avaliação oftalmológica, segundo dados do Censo 2010 — número que reforça a urgência de novas abordagens.
Ciência, regulação e política: os pilares que faltam
Apesar de o país possuir centros altamente avançados em inovação médica, como o Einstein, o marco regulatório da saúde digital ainda não acompanha o ritmo da tecnologia.
Segundo Lotemberg, o país precisa de:
- Políticas públicas contínuas, não baseadas apenas em mutirões
- Clareza regulatória para uso de IA
- Investimentos em capacitação, pesquisa e infraestrutura
- Integração entre universidades, hospitais e o Sistema Único de Saúde (SUS)
Sem um plano estruturado, afirma o médico, o país corre o risco de ficar preso em soluções emergenciais que “apagam incêndios”, sem resolver o problema central.
Parcerias público-privadas: avanço necessário, mas ainda tímido
A participação de hospitais filantrópicos e privados na execução de serviços do SUS é vista por Lotemberg como uma evolução importante, especialmente após a pandemia.
Ele ressalta, no entanto:
“A saúde hoje é questão de segurança nacional.”
A dependência de insumos internacionais — revelada de forma dramática durante a COVID-19 — expôs a vulnerabilidade brasileira. Sem fortalecer seu próprio complexo industrial da saúde, o país permanecerá vulnerável em crises futuras.
Olhando para o futuro
A mensagem principal da entrevista é clara: a tecnologia já está pronta para revolucionar a saúde ocular e salvar milhões de brasileiros da perda evitável da visão. O que falta é transformar potencial em política pública.
A integração entre IA, telemedicina e gestão eficiente pode inaugurar uma nova era na prevenção de doenças oculares e cardiovasculares — e coloca o Brasil diante de uma oportunidade histórica de modernizar sua saúde pública.
Por: Ivan Durand Junior
Fonte: Entrevista ao canal Real Time — YouTube 21/11/2025



